TRANSFORMAÇÕES CLIMÁTICAS: mudanças de paradigma

Nos últimos anos o mundo tem vivenciado um número significativo de desastres climáticos, como secas devastadoras, enchentes, tsunamis, furacões. Esses eventos têm impacto político-social-econômico direto nas sociedades afetadas e os efeitos físicos e psicológicos decorrentes desses desastres na maioria das vezes são irreparáveis. Alguns estudiosos defendem que essas desordens são causadas pela própria natureza, contrariando informações apresentadas por estudos que, por sua vez, comprovam a influência de ações antrópicas na causa desses eventos. Diante desse impasse observa-se a ocorrência de uma mudança de paradigma na sociedade em relação a essas transformações.

O quarto relatório de avaliação (AR4) do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – IPCC, aponta que os eventos extremos tem fortes relações com as mudanças climáticas. No Brasil, conforme às projeções do Instituto Nacional de pesquisas Espaciais – INPE, essa realidade pode ser exemplificada pela diminuição ou aumento de chuvas, aumento de temperatura e extremos de seca. Dada a dimensão do problema, a ONU, bem como a comunidade internacional de um modo geral, estão na corrida para romper com o paradigma existente uma vez que os efeitos das mudanças climáticas atinge a todos. Segundo a PNMC – Política Nacional sobre Mudança no Clima prevista pela lei 12.187/09 todos têm o dever de atuar, em benefício das presentes e futuras gerações, para a redução dos impactos decorrentes das interferências antrópicas sobre o sistema climático. Por isso deverão ser tomadas medidas com o objetivo de prever, evitar ou minimizar as causas identificadas da mudança climática com origem antrópica no território nacional.

O perigo iminente para o Brasil pode ser identificado diretamente pelos moradores da área costeira devido a um aumento da temperatura do ambiente, que resulta na elevação do nível do mar. Conforme o Relatório Impacto, vulnerabilidade e adaptação das cidades costeiras brasileira (PBMC, 2016) cerca de mais de 60\% da população habita nessas cidades, residindo na faixa de 60 quilômetros da costa, a exemplo de Rio Grande-RS, Laguna-SC, Florianópolis-SC, Paranaguá-PR, Santos-SP, Rio de Janeiro-RJ, Vitória-ES, Salvador-BA, Maceió-AL, Recife-PE, São Luís-MA, Fortaleza-CE, Belém-PA. Nessa perspectiva, justifica-se importante salientar com destaque os efeitos de eventos climáticos na região.

Ainda conforme o Relatório, o aumento do nível do mar, que pode chegar a 40 cm até 2050, provocará perdas econômicas de aproximadamente U$ 1,2 bilhões para as 22 maiores cidades costeiras latino-americanas. Para a realidade brasileira, no entanto, ainda não há mensuração exata dos custos econômicos advindos desses fenômenos.

Um outro exemplo de mudanças extremas foi observado em 2004 com a ocorrência do é o furacão Catarina que também atingiu o Brasil, embora o país não apresente um histórico de furacões. Tal evento é um dos indicadores da ampliação da área de risco de fenômenos decorrentes de alterações climáticas.

Esses acontecimentos deixam feridas abertas na sociedade tanto no sentido econômico como social e ambiental, os custos gerados pelas catástrofes podem ser irreversíveis. É dessa perspectiva que se faz necessário uma mudança de paradigma que consiste na necessidade de se estabelecer novas diretrizes, onde seja viável através da sustentabilidade a resolução para a crise mundial. Com afirma Arnt e Coutinho (2010), a “questão da mudança climática é um processo de efeitos poderosos e desestabilizadores não apenas sobre a economia mas sobre o bem estar e as condições de vida de todo planeta em potencial e requer uma nova maneira de pensar”. Nesse sentido Luciano Coutinho aborda as questões das mudanças climáticas a partir da análise do crescimento e o desenvolvimento econômico e acredita que é importante que exista um equilíbrio nas discussões já que os países não podem abdicar do crescimento nem pode desconsiderar as mudanças climáticas. Diante desse impasse o autor defende a necessidade de estabelecer prioridades hoje ou essas mudanças poderão apresentar elevados custos no futuro, talvez a própria sobrevivência da sociedade.

Para os países em desenvolvimento a busca pela sustentabilidade se torna um desafio ainda maior já que enfrentam problemas sociais muito profundos que ofuscam discussões e projetos acerca dos problemas ambientais. Por tal motivo, foi determinado no protocolo de Quioto que os países em desenvolvimento não teriam metas estabelecidas, já que países desenvolvidos – que são responsáveis históricos pela mudança do clima na sua corrida para o desenvolvimento, possuem condições sociais e econômicas e até mesmo tecnológicas mais favoráveis a essas mudanças no momento. No entanto os países em desenvolvimento não estão isentos dessa questão e através do suporte financeiro daqueles, têm a necessidade de criar projetos e alternativas sustentáveis para amenizar tal problemática.

Decerto, os desequilíbrios que vem sendo cada vez mais acentuados advém inevitavelmente do processo de globalização associado ao modelo de consumo exacerbado, que deixa seus mais diversos vestígios na sociedade e no meio ambiente de modo geral.

Relacionando a vertente do sistema econômico e do meio ambiente, Cechin e Veiga (2009, p.7), chamam a atenção para o processo não cíclico do sistema produtivo da economia com uma abertura a entrada de energia e matérias de qualidade, mas ao mesmo tempo para a saída de resíduos. Ora, produzir economicamente traz consequências ambientais e mudanças climáticas derivadas das ações humanas. Isso implica, ainda em sua interpretação de que tal problema e seus desafios não serão resolvidos tratando apenas os sintomas, remetendo assim a ideia de mudança de paradigma. Uma vez que há de fato uma mudança de padrão mais acentuada das condições climáticas, urge simultaneamente a necessidade de toda uma mudança de paradigma a fim de evitar a priori, as primeiras manifestações desses sintomas.

Faria e Oliveira (2013) chamam a atenção para a necessidade de introdução da questão ambiental, com o objetivo de quantificar a sua degradação, para satisfazer corretamente as noções de bem estar de uma sociedade, uma vez que os indicadores de PIB e IDH excluem toda essa temática. Nesse sentido, ainda conforme os autores a sustentabilidade deve alcançar de forma interligada os aspectos econômicos, ambientais, educacionais. Ainda conforme esse contexto de necessidade de mudança de paradigma, deve ser acompanhada de uma questão multidisciplinar, abrangendo além de questões econômicas e ecológicas, tais como culturais, políticos, sociais, espaciais/territoriais.

Assim, a mudança de paradigma associada às transformações climáticas revela-se em dois contextos. O primeiro associa-se à efetiva observação dos fenômenos dos últimos anos. O segundo, vincula-se às expectativas e previsões decorrentes de possibilidades de ação e hipóteses de agravamento.(accesso ao artigo em pdf)

Leila Fontoura e Adriana Cerqueira
Graduandas em Economia na UEFS.
Pesquisadoras do RHIOS.

Leia outros textos de Leila Fontoura, Adriana Cerqueira

Referências:

  •  CECHIN, Andrei; VEIGA, JE da. O fundamento central da economia ecológica. Economia do meio ambiente: teoria e prática, v. 2, p. 33-48, 2010.
  • DE FARIA, Mauricio Marques. O PARADIGMA DA SUSTENTABILIDADE. Temiminós Revista Científica, v. 2, n. 2, p. 138-152, 2013.
  • LOMBARDO, Magda Adelaide. Mudanças climáticas recentes e ações antrópicas. Revista do Departamento de Geografia, Sao Paulo, p.1-7, 2011.
  • LEI 12.187/09. Artigo terceiro; incisos I e II. Disponível em: www.planalto.gov.br.Último acesso: 09/10/2017;
  • ONU E AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS. Endereço: nacoesunidas.org. Último acesso: 09/10/2017.
  • MUDANÇA DO CLIMA. Endereço: www.mma.gov.br. Último acesso: 09/10/2017.
  • POLÍTICA NACIONAL SOBRE A MUDANÇA DO CLIMA. Endereço: www.mma.gov.br . Último acesso: 09/10/2017.
  • ARNT, Ricardo (Ed.). O que os economistas pensam sobre sustentabilidade. Editora 34, 2010.
  • PAINEL INTERGOVERNAMENTAL SOBRE MUDANÇAS NO CLIMA. Endereço: www.brasil.gov.br;
  • PAINEL BRASILEIRO DE MUDANÇAS CLIMÁTICAS. Impacto, vulnerabilidade e adaptação das cidades costeiras brasileiras às mudanças climáticas: Relatório Especial do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas. Rio de Janeiro, 2016. 184 p.